Em tempo de espera, invocam-se recordações sobre o Chiado e o Bairro Alto, diluídas em terno whisky. Para uma leitura mais séria, há versos do Pessoa; para quem quiser estórias mais típicas, há um ceguinho e os desamores de D.ª Matilde.
Aqui estou eu com dois ou três cigarros fumados, marcando um compasso de espera n’A Brasileira do Chiado. Lídia demora e a tarde escurece. Pela esplanada, agitam-se turistas, num rumor truculento de linguagens, e o Pessoa, feito estátua de bronze, olha com poesia os pombos que lhe debicam o regaço. Má tarde, penso eu, sozinho entre gente estranha e com um poeta mudo a servir de poiso a criaturas aladas. Se Lídia aqui estivesse, não seria da mesma opinião. Falar-me-ia, naquele seu tom muito paciente, muito didático, do ambiente mágico d’A Brasileira e do seu glorioso passado. Viria então, à guisa de explicação, um tal de Adriano Telles que fizera fortuna no Brasil com o negócio do café e que, em 1905, resolvera fundar A Brasileira em pleno Chiado, aproveitando o casario enobrecido da R. Garrett.
Contam os Anais que o estabelecimento pouco sucesso teve de início, porque o “genuíno café do Brasil” que vendia era muito pouco apreciado ou até evitado pelas conservadoras donas de casa lisboetas. Mas a revolução da 1.ª República acabou por trazer novos aromas. Foram proclamadas as liberdades de reunião e de associação, o Diretório republicano instalou-se nas proximidades, no Largo de S. Carlos, e A Brasileira tornou-se num dos cafés mais concorridos de Lisboa por gentes do povo, políticos e intelectuais. Com este mar de gente, vieram também as vagas de escritores e de artistas que marcaram, profundamente, a cultura portuguesa do século XX: Henrique Rosa, Almada Negreiros, José Pacheco, entre tantos outros.
Lídia saberia o nome de todos, de cor, e falaria dos livros e dos quadros de cada um com o mesmo entusiasmo com que lhe marejavam os olhos em dias de felicidade. Por vezes, nas conversas mais acaloradas, havia turistas que a ouviam, que lhe entendiam a sonoridade da história e da geografia de Lisboa e que lhe pediam mais explicações. Lídia a todos atendia, evocava estórias do passado da cidade e desdobrava-se numa babel de pormenores, em inglês, em francês, em espanhol – e até no arrevesado alemão. Eu só abanava a cabeça e suspirava. Lembrava-me então daqueles versos do Pessoa, fingindo-se de Ricardo Reis, e sussurrava-lhe:
Lídia, ignoramos. Somos estrangeiros
Onde quer que estejamos.
Lídia, ignoramos. Somos estrangeiros
Onde quer que moremos. Tudo é alheio
Nem fala língua nossa.
Mas Lídia sorria em todas as línguas. E era bela como a primavera derramada no leito de um rio, deixando-se levar pela corrente das perguntas que lhe faziam. Quem foi António Ribeiro Chiado? Onde fica a Igreja do Loreto? Em que ano foi o grande incêndio? E eu afastava-me, discretamente. Afinal, o único estrangeiro ali era eu.
Mais meia hora que passa, mais um cigarro fumado na lenta espera por Lídia. O empregado d’A Brasileira, muito aprumado, ronda-me o copo, aos saltinhos, talvez preocupado por o whisky não me chegar para meia hora mais. Ok, empregado, enche-me o copo, porque o whisky quer-se diluído em boas memórias e estas ainda vão no início.
Emerge da estação do metro do Chiado um ceguinho amparado pelo seu acordeão. Com sábio instinto, vai evitando os empurrões da turba que sobe e desce a R. Garrett. Mais parece um barco à deriva sobre um mar pejado de escolhos. Vai sentar-se na escadaria da Igreja dos Mártires, talvez guiado pelo som das esmolas das beatas velhinhas que se atropelam para a missa. Prepara uma modinha triste, lamentosa, acariciando as teclas gastas do velho acordeão. E, nisto, há um jovem que também se aproxima da escadaria. Traz uma guitarra a tiracolo e arrasta-se num passo de vagabundagem inspirado em Bob Dylan. Senta-se ao lado do ceguinho e dedilha a guitarra com carinho. Toca um dó, um si; o ceguinho acompanha-o, com um lá, um mi; e, de repente, improvisa-se um dueto com acordes à desgarrada e cantos de terna desventura. As velhinhas, embevecidas, desdobram-se nas esmolas e assim segue o entardecer no Chiado.
Chega, entretanto, o elétrico 28, gemendo sobre os carris da R. Paiva de Andrada. O súbito tilintar da campainha assalta-me a memória e vejo-me sentado, ao lado de Lídia, num outro tempo, torcendo-me no duro banco de madeira. Éramos dois desconhecidos, sacudidos pelas curvas e contracurvas do elétrico que subia a colina. Eu ia cismado no jornal “A Bola”, espumando impropérios ao pé de chumbo do Cardozo e à última derrota do Benfica. Lídia perdia-se na volumosa leitura d’Os Maias, folheando as páginas com a carinhosa alvura dos seus dedos. Perguntei-lhe que trecho lia. Ela sorriu (sorria sempre) e falou-me da chegada de Carlos da Maia e de João da Ega ao Chiado:
Estavam no Loreto; e Carlos parara, olhando, reentrando na intimidade daquele velho coração da capital. Nada mudara. A mesma sentinela sonolenta rondava em torno à estátua triste de Camões. Os mesmos reposteiros vermelhos, com brasões eclesiásticos, pendiam nas portas das duas igrejas. O Hotel Aliança conservava o mesmo ar mudo e deserto. Um lindo sol dourava o lajedo; batedores de chapéu à faia fustigavam as pilecas; três varinas, de canastra à cabeça, maneavam os quadris, fortes e ágeis na plena luz. A uma esquina, vadios em farrapos fumavam; e na esquina defronte, na Havanesa, fumavam também outros vadios, de sobrecasaca, politicando.
Aqui, Lídia interrompeu a leitura e apeou-se do elétrico – era a sua paragem. Veio-me um gelo à alma e, com inusitada decisão, levantei-me também e resolvi acompanhá-la. Soube que era guia turística e, para primeiro tema de conversa, o Chiado até nem ia nada mal.
– Sabes – dizia ela, abarcando o bairro num gesto largo –, tudo isto está bastante mudado. O Chiado do Eça já não é o Chiado de agora. Continua a ser o velho coração da capital, mas palpita-lhe uma nova vida. Gosto de ver os bandos de jovens que se juntam em torno à estátua do Camões. Penso que até o próprio poeta se alegra com os encontros e desencontros que ocorrem naquele largo, a seus pés. Há novas estórias, novos eventos, criam-se flash mobiles e desfiles de Halloween. As igrejas do Loreto e de Nossa Senhora da Encarnação recebem crentes e turistas de portas abertas, já sem o peso eclesiástico dos reposteiros vermelhos e brasonados. E há lojas, há comércio, gente que se dispersa com os cartões de crédito pela Zara, pela Benetton e por boutiques de estilistas. Senhoras finas, caiadas pelos últimos cosméticos da moda, perdem-se em caturreiras de passeio enquanto os maridos, em carros de alta cilindrada, vagueiam pela estreiteza das ruas, desesperados por encontrar um lugar para estacionar. E há sempre outras animações de rua: um andarilho de mil malabarismos, que solta fogo pela boca, um violinista à esquina tocando uma fuga de Bach ou um mágico saltando do nada e enganando os turistas com simples ilusões de cartas.
Depois, pegou-me na mão e piscou-me o olho:
– Mas há uma coisa que nunca muda – e é este sol, este lindo sol que doura o lajedo, como dizia o Eça.
Naquele momento, só pude agradecer ao Senhor Eça o lindo sol que se derramava pela calçada e a Lídia o sorriso meigo com que me franqueava as portas do seu bairro.
Uma semana depois, já nos perdíamos, felizes, nos concertos do Festival ao Largo, em frente ao Teatro de São Carlos. Era um mar de gente que ali se juntava, nas noites tépidas de verão, e nós ficávamos sentados na estreiteza de umas escadinhas, tentando ouvir, entre o burburinho ingrato que se levantava, o Prelúdio “Inno del Sole”, de Pietro Mascagni. A orquestra sinfónica portuguesa rufava, em triunfo, e o coro do teatro de São Carlos vociferava. Os acordes tornavam-se épicos, os edifícios em volta estremeciam e nós, na nossa alegria, levantávamo-nos, aplaudíamos e tentávamos fazer a onda para grande escândalo das senhoras que se aninhavam em volta. E vinha depois o elétrico – o nosso elétrico 28 – que fazia troar as pedras da calçada, rangia ferro e aço sobre os carris e abrandava, à vista do espetáculo, para os turistas assomarem às janelas e tirarem fotografias. E nós ríamo-nos, acenávamos a todos, fossem ingleses, espanhóis ou de outro hemisfério, e pedíamos que descessem do elétrico para se juntarem à festa. Os poucos corajosos que o faziam eram brindados com cerveja e, depois, rumávamos todos ao Bairro Alto, onde nos perdíamos em agitados bares e tabernas.
Ao fim de um mês, já morávamos numas escusas águas-furtadas, à Bica. E tínhamos, de novo, o rugido metálico do elevador que subia e descia a rua com os mesmos turistas tontos que naufragavam em Lisboa. Havia também, noite sim, noite não, o clássico número de opereta bufa (assim o classificava Lídia), com a nossa senhoria, a D.ª Matilde, a expulsar o infiel marido de casa. E lá ficava o desgraçado, no meio da rua, encolhido nas ceroulas e a gritar juras de amor à indignada esposa. Gerava-se a confusão: os vizinhos acordavam, estremunhados, com ameaças de chamarem a polícia; o marido, arrependido, chorava à porta de casa e prometia ser fiel até ao fim da vida; D.ª Matilde, muito desalinhada, rompia, em fúria, pela varanda e atirava com dois ou três vasos para o meio da calçada, com promessas de abreviar a vida daquele bandido. No final, tudo acabava em mútuo arrependimento. Corriam para os braços um do outro, ela queixando-se da espondilose, ele sofrendo de cólicas, e aconchegavam-se na penumbra do 4.º andar, a que D.ª Matilde, muito embevecida, chamava ninho de amor.
– Um copo mais? – pergunta-me o empregado.
Não, aceno eu, não sejas maldito. Afasta-me o whisky da mesa. Talvez Lídia não tarde. Além disso, suspeito que o whisky é de má qualidade: da mesa d’A Brasileira aproxima-se um leão; e depois um espantalho; e também um homem de lata. De repente, vejo-me a mergulhar no fantástico mundo de Oz. Só falta a Judy Garland a cantar “Somewhere, over the rainbow”. Entregam-me um panfleto e constato que são apenas jovens artistas a anunciar o próximo espetáculo musical no Teatro da Trindade. Talvez vá e convide Lídia. Ela haveria de gostar e, de certeza, que me recordaria, uma vez mais, as tradições culturais do Chiado. Afinal, o Teatro da Trindade localizava-se na mesma zona onde funcionara, em meados do século XVIII, a Academia da Trindade, o primeiro Teatro Popular de Ópera.
Penso que foi numa dessas nossas idas ao Trindade que Lídia me apresentou Serafino, homem seco, muito hirto, um jornalista da velha guarda. Falava com ponderação, medindo todas as palavras, e dizia ser descendente de um tal senhor Guedelha Palaçano, que foi homem de cultura e rabi-mor, no tempo do rei D. Afonso V, e a quem pertenciam os terrenos onde hoje se ergue o Bairro Alto. Lídia também me segredou um dia que Serafino era conhecido como o Garganta Funda, não porque tivesse investigado casos célebres, como o Watergate, mas porque a sua garganta era um profundo abismo onde se derramava todo o tipo de álcoois de más garrafeiras. Contudo, era um homem generoso e de bom coração.
Um dia, Serafino foi mostrar-nos o Bairro Alto das antigas redações de jornais, não sem antes nos dizer, em tom de sermão, que a vida custa a ganhar, que começara como ajudante de tipografia, que fizera de moço de recados dos senhores redatores, acabando por ser apadrinhado pelo célebre Gervásio Pinto, jornalista de futebóis e de driblos à censura salazarenga. E nós abanávamos a cabeça, dizíamos que sim, que a vida custa a ganhar, e Serafino perdia-se então em explicações, em memórias sobre o seu mundo, começando por nos apontar a Hemeroteca Municipal, na R. de São Pedro da Alcântara, onde estavam guardados todos os jornais e revistas da cidade. Dali ao miradouro eram dois passos e Serafino recordava-nos que, depois do grande terramoto de 1755, toda aquela zona ficara destruída. O próprio miradouro era muito diferente do que é hoje. Por ter ficado muito degradado com o abalo sísmico, era propício a suicídios e foi por isso que lhe construíram um jardim em baixo – sempre servia para aparar as quedas das almas mais desvairadas. Indicava-nos também, com gesto sabido, o monumento financiado pelo “Diário de Notícias”, através de subscrição pública, e que homenageava Eduardo Coelho, o fundador daquele jornal. Já na R. de O Século, a alma de Serafino definhava à vista dos vetustos palacetes e apontava-nos um, em particular, rosnando que fora ali, entre o n.º 41 e o n.º 63, que o jornal “O Século” tivera toda a sua glória e que agora não passava de campo de pasto para os burocratas do Ministério do Ambiente. E enumerava, com triste lembrança, o nome de outros jornais que tiveram as redações no Bairro Alto: o “Diário Popular”, “A Capital” e até mesmo o “Correio da Manhã”, no antigo Palácio Baronesa de Almeida, onde fica hoje a galeria Zé dos Bois. O único jornal que restava por ali era “A Bola”, na Travessa da Queimada, e eu só esperava que assim permanecesse, por muitos e longos anos, publicando loas ao meu Benfica.
– Sonhas com o Benfica? – pergunta-me alguém, agora com um sorriso.
Não, Lídia. Sonho contigo, comigo – connosco, enfim! Sonho com o tempo que passámos juntos entre o Chiado e o Bairro Alto. Sonho com as nossas aventuras e desventuras, alegrias e tristezas. Sonho com tudo, menos com uma vida sem ti.
– Tenho uma surpresa – diz-me ela. E o seu sorriso torna-se mais claro. – Foi difícil e, por isso, me demorei. Lembras-te daquele T1 que vimos, na passada semana, em Santos? Consegui o contrato de aluguer. Podemos mudar logo que queiras.
Sim, lembrava-me do apartamento. Não era maior do que aquele que tínhamos na R. da Bica, mas talvez fosse melhor mudarmos para outro sítio de Lisboa. Acima de Santos, poderíamos visitar a Madragoa, o Palácio do Marquês de Abrantes, a R. da Esperança, onde vivera Gago Coutinho, e o Convento das Bernardas. Abaixo, teríamos a zona ribeirinha do Tejo, onde, em fins de semana de preguiça, daríamos doces passeios.
Cai a noite, entretanto, e A Brasileira arrefece. Pago a conta dos whiskies e parto com Lídia ao encontro do nosso novo destino. Estórias não faltarão para recordar, num outro breviário, à mesa de um público café.
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